Angola: o mercado não é para todos
Terça, 18 de Outubro de 2011
por Acabra .Net
Em Angola, as classes mais baixas são excluídas dos supermercados. Está marcada para 2013, a construção de um Continente em Luanda, através da parceria entre a SONAE com Isabel dos Santos. Por Félix Ribeiro
As desigualdades sociais em Angola não dividem a população apenas segundo o critério de poder de compra. A distribuição alimentar obedece maioritariamente a este sistema. Todavia, a desarticulação entre as camadas sociais é tal, que os fornecedores são conotados com um determinado estrato, e por ele preferidos, o que transcende as desigualdades para lá do campo económico. Se, por um lado, existe uma minoria que beneficia de relações económicas com o estado, e possuí capacidade para satisfazer as suas necessidades alimentares primárias nos poucos supermercados do país, a maioria dos angolanos não pode, ou sequer deseja, abandonar o comércio informal. Esta é a posição defendida por Miguel Filipe Silva, coordenador executivo do centro de estudos africanos da Universidade do Porto enquanto Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento: "Se o preço no comércio informal fosse xis, e o preço no comércio formal fosse xis também, a tendência das pessoas com menos capacidade financeira é de ir comprar ao comércio tradicional. Sentem que estão no seu espaço, são mais valorizadas e noutro espaço são olhadas de soslaio".
Desta forma, a perspectiva ocidental de que o desenvolvimento em países como Angola passa por acabar com a economia informal, não estando completamente errada, deve considerar, numa primeira instância, a disparidade social. Os retalhistas alimentares reforçam as divisões, pois, como afirma Miguel Filipe Silva, a classe mais baixa não actua como consumidora. Para que se possam assumir como tal, "as empresas têm que baixar imenso os seus custos de produção, têm que fazer produtos adaptados para as necessidades dessas pessoas".
Muito embora possam sair vincadas as desigualdades sociais, a instalação em território angolano de superfícies de retalho moderno alimentar traz a grande vantagem do investimento nos produtores locais. Estas superfícies optam por recorrer às importações, como forma de responder às exigências do seu público-alvo, ao contrário do que acontece nos mercados informais. Ainda assim, Susana Costa e Silva, directora do departamento de marketing da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa do Porto, explica que, no conjunto dos produtos comercializados, há sempre os que são provenientes de produtores angolanos. Outro benefício, explica, concerne à "vantagem para os consumidores que têm poder de compra e que, portanto, têm à sua disposição produtos de que precisam"-, por fim, conclui Susana Costa e Silva, "a terceira vantagem é a de criação de emprego local."
A entrada do Continente em Luanda
Está agendada a entrada, para 2013, de um supermercado Continente em Luanda, através de uma pareceria entre a SONAE e a empresária angolana Isabel dos Santos, filha do actual presidente. A orientação que esta grande superfície vai assumir é, de momento, desconhecida. Para Miguel Filipe Silva, é importante saber se o Continente prossegue o posicionamento "low cost" que tenta assumir em Portugal, "ou se, em Angola, vai procurar, acima de tudo, servir a camada superior da sociedade e os expatriados de todos os países do mundo", que beneficiam das ligações com o Estado Angolano e, por conseguinte, dos proveitos do petróleo. O coordenador executivo da ONGD é da opinião de que "para o Continente poderá ser muito interessante um posicionamento médio-alto, embora este seja um posicionamento que poderá ter alguma discussão".
Desde já, Susana Costa e Silva é da opinião de que a parceria com Isabel dos Santos representa um factor determinante. "Entrar no mercado que tem complexidades e especificidades acrescidas, como é o caso de Luanda, deve ser feito através de um parceiro local em quem se tenha muita confiança", afirma.
As especificidades angolanas
No país, a economia está centrada na exploração de petróleo, e a actividade do país, por sua vez, centrada quase inteiramente na capital. A opacidade democrática do país é outra particularidade que se acrescenta ao panorama angolano. "O petróleo vai sendo distribuído em forma de dinheiro para uma elite angolana, que passa pelos políticos do partido que está no poder, o MPLA", assevera Miguel Filipe Silva.
É neste contexto que surge a parceria entre a SONAE e a filha do actual presidente angolano, José Eduardo dos Santos. Na opinião da directora do departamento de marketing da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa do Porto, Susana Costa e Silva, "é jogar através das regras do jogo que se jogam actualmente no mercado em Angola."
Com Maria Garrido






