Afinal Proust era mesmo um "neurocientista"
Quinta, 08 de Julho de 2010
por Jonathan Costa
A possibilidade de a criatividade artística antecipar as descobertas da ciência foi o mote de mais uma sessão da iniciativa "Café, Livros e Ciência" ocorrida hoje, 8, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. O livro "Proust era um neurocientista" de Jonah Lehrer serviu de base para uma tertúlia informal em que arte e ciência estiveram lado a lado
"Será que é possível trazer a arte para o laboratório?" A questão iniciou a apresentação da obra "Proust era um neurocientista" do cientista e escritor norte-americano Jonah Lehrer. Coube ao neurocientista e docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), Miguel Castelo Branco, introduzir o livro num viagem - capítulo a capítulo, artista a artista.
O pintor Paul Cézanne, o compositor Igor Stravinsky, o cozinheiro Auguste Escoffier e os escritores Walt Whitman, George Eliot, Marcel Proust, Gertrude Stein e Virginia Woolf são os artistas referidos por Jonah Lehrer e, desta forma, referidos ao longo da tertúlia.
O escritor explica como cada um dos artistas abordou determinado conceito científico e como as neurociências chegaram, mais tarde a explicar o fenómeno. As "telas poderosamente vazias" de Cézanne, por exemplo, "em que o nosso cérebro completa de forma harmoniosa o que falta", destaca Miguel Castelo Branco.
"Hoje sabe-se que aprendemos a ver e depois a reproduzir o objecto visual", conclui o docente da FCTUC.
E ainda, Virginia Wolff e o seu "eu dilacerado" que vai ao encontro do conceito actual do "eu" multifacetado e da relação entre o "eu" consciente e o "eu" inconsciente.
Já a obra do escritor Marcel Proust que "se prendia muito na memória"e em "mnemónicas". "Proust foi uma pessoa que se refugiou nas memórias do passado", destacando-as na sua obra, esclareceu Miguel Castelo Branco.
A ideia de que a "memória é algo fixo que vai se modificando com o tempo" defendida por Proust é hoje em dia aceite entre a comunidade científica. "Ao investirmos na consolidação de uma memória, podemos matá-la ou alterá-la", concluiu o neurocientista.
Para Miguel Castelo Branco, o livro de Johan Lehrer é um livro "escrito à flor da pele", em que "sente-se a paixão do autor pela ciência", o que compensa o que a obra "perde em organização".
"Café, Livros e Ciência" é uma iniciativa que ocorre na primeira quinta-feira de cada mês num périplo por cada uma das instituições parceiras - o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho e a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro.
O director do Museu da Ciência da UC, Paulo Gama Mota, salienta que a iniciativa "visa levar as pessoas ouvirem falar de um livro que é interessante e levá-la a lê-lo", assim como "suscitar reflexões".
Em Agosto, não vai ocorrer nenhuma sessão da "Café, Livros e Ciência". O Museu da Ciência da UC vai receber a sessão do mês de Novembro. No entanto, Paulo Gama Mota revela que, de momento, o livro a ser apresentado não foi escolhido.






