Afinal, onde está o monólogo?

Quinta, 04 de Março de 2010

por Inês Silva

Ao terceiro dia da XII Semana Cultural, algumas personalidades das artes juntaram-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) para debater o papel do monólogo em cada uma das suas áreas de eleição. No entanto, a procura do monólogo puro nas artes continua

Em colaboração com o curso de Estudos Artísticos da FLUC e no âmbito do ciclo “Do Monólogo, Coisa Pública”, quatro personalidades de áreas artísticas diferentes reuniram-se para um confronto de ideias sobre a questão: Afinal, o que pode ser considerado monólogo e onde pode encontrar-se nas várias formas de expressão artística?

A palavra monólogo, que carrega já em si o logos, tem na sociedade ocidental um forte tom “logocêntrico”, explica o mediador, João Maria André. Já Daniel Tércio, Professor na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, que defende a dança neste debate, começa por dizer que “se a palavra for sobrevalorizada na linguagem cénica, dificilmente se poderá falar de monólogos em dança”. Assim, “na dança contemporânea, quando se introduz a palavra, esta surge apenas para ajudar o corpo a dar-se a ver e ouvir”.

No teatro, foi o galego Afonso Becerra de Becerreá, Professor da Escola Superior de Arte Dramática na Galiza e também dramaturgo e encenador que defendeu que, “na realidade, não existe um monólogo no teatro. A interacção move-se em padrões não tão egocêntricos como seria de esperar”. Acrescenta: “a identidade é o centro, e ela é fruto da relação com os outros. O actor vai estar sempre a dialogar – quanto mais não seja com a personagem que alguém contruiu para si.”

Abílio Hernandez, docente da FLUC, afirma que, no cinema, “o monólogo pode significar monitorização do outro ou apelo, pode ser algo que se vira para fora ou para dentro”. Fernando Matos Oliveira, Coordenador do Curso de Estudos Artísticos, expôs a arte performativa e defendeu que esta sintoniza muito bem com a ideia do monólogo, uma vez que “o monólogo pode ir ao encontro do sujeito emergente” nesta forma de arte. Acrescenta que a arte performativa é uma arte “que faz muito pela modalidade solipsista”, o que se relaciona bem com o conceito do monólogo.

No entanto, findo o debate, não existe uma ideia consensual acerca do conceito do monólogo nas artes performativas. Se, por um lado, o intérprete estará sempre preso dentro dos seus limites e do seu pensamento, por outro, ele estará sempre em situação dialógica consigo e com a sua personagem. Afinal, o monólogo estará sempre presente nas artes, mas dialogando com as diversas formas de fazer a arte e com o seu público.