Entrevista - Norberto Pires – Presidente da CCDRC

“A Universidade não é empreendedora, portanto não pode ensinar a ser”

Terça, 17 de Abril de 2012

por Acabra .Net

Há pouco mais de um mês na presidência da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), Norberto Pires é apologista da ideia de regionalização. Considera as pessoas a maior riqueza da região centro - ainda assim, admite haver dificuldades na fixação dos recursos humanos. Inevitavelmente associado ao iParque, o também professor da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra (FCTUC) critica aquilo que diz ser a falta de espírito empreendedor das universidades portuguesas. Por Ana Morais e Inês Amado da Silva

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Norberto Pires assumiu a presidência da CCDRC há pouco mais de um mês Foto por Inês Amado da Silva

O seu nome está inevitavelmente ligado ao iParque. Em que ponto está o projeto?
O iParque tem três fases. Uma primeira que foi de conceção geral do parque. A segunda fase foi a de lançamento de infraestruturas, onde se decidiu a duplicação da área. Neste momento está nessa segunda fase, está ainda a instalar as primeiras empresas. Atualmente, o iParque deve ter em obra na ordem dos 45 a 50 milhões de euros.

Crê que o lugar que ocupou no iParque contribui para a sua nomeação para presidente da CCDRC?
Tudo o que fazemos na vida faz parte do nosso currículo. Mas se foi determinante, acho que não. O impacto que teve deu alguma visibilidade. Já tinha muita visibilidade a nível de investigação, como professor universitário. E o iParque deu-me visibilidade de extensão mais pública. Mas acho que isso não foi significativo, mas posso até estar enganado.

Em que medida a sua formação académica contribui para desempenhar este cargo?

É o meu perfil. Não contribui para a escolha, mas muito para a forma como eu atuo. Uma pessoa que privilegia muito iniciativas sustentáveis, bem pensadas, planeadas. Sou uma pessoa que coloca o foco muito em resultados, olho para as coisas e tento que elas sejam feitas com o menor número possível. Os cientistas são um pouco assim, tem sempre um objetivo e nunca se afastam dele. Nesse tipo de abordagem acho que a minha formação tem uma influência muito grande.

Houve alguma coisa que falhou no iParque?
Não. Não tenho medo da palavra, mas prefiro responder doutra forma. Houve coisas que eu gostaria que tivessem corrido de outra maneira. Por exemplo, certos processos podiam ter demorado menos tempo e era desejável que assim fosse. Gostava que o financiamento tivesse chegado mais cedo. Mas o QREN só veio em 2009, tivemos que esperar por ele. Não havia nada a fazer.

Que peça constitui o iParque no equilíbrio da região centro?
Este parque é um conceito que não existe no país, em mais lado nenhum. Não é por acaso que é o primeiro parque de ciência e tecnologia da região que tem como parceiro uma universidade. Se funcionar como uma excelente relação entre indústria, economia e a universidade é a primeira vez que se faz.
A universidade não é aproveitada hoje, é um mundo muito protegido. A primeira vez que estão desprotegidos, é quando abrem a porta e vos dizem para ir procurar emprego. Era necessário que a própria universidade vos picasse o rabo.

A universidade tem esse espírito empreendedor e incute isso nos alunos?
Não, não tem. Mas não é só a UC, é a universidade portuguesa. A universidade vai fazer isso cada vez mais, porque vai sentindo a necessidade de gerar orçamento.
Digam qual é o docente que vos incentiva a ser empreendedores, a irem para além do que vos pedem? A Universidade não é empreendedora, portanto não pode ensinar a ser.

Agora que está na presidência da CCDRC, quais são os maiores desafios e lacunas a que acha urgente responder?
O primeiro desafio é isto funcionar como uma região. Neste momento, a região centro são associações de terras e não há uma consciência regional, não há o sentimento de pertença comum. A região centro para ser alguma mais-valia tem que ser a soma de 100 municípios à ação em conjunto. Caso contrário para que funciona? Tem que ser algo para além das partes. Depois a questão de perceber que ao trabalhar dessa forma, há opções a fazer que têm como objetivo reforçar as competências que temos e através delas diminuir as diferenças que existem. É como se fossemos uma família muito grande em que uns elementos têm que ajudar aqueles que têm mais dificuldades, de maneira a que a capacidade média seja distribuída. Isso só vai acontecer se tivermos a consciência de região, por isso é que eu dei o exemplo de família. Tem que haver aqui uma entreajuda maior para que essas assimetrias desapareçam.

Haveria vantagens num processo de regionalização?
Sim, nessa perspetiva. Em que essa iniciativa de distribuição de poderes e competências façam com que ela funcione de forma mais coesa. Caso contrário não vejo grande interesse.

Quais sãos os equilíbrios e desequilíbrios da região centro?
Há um desequilíbrio grande entre o interior e o litoral que teve a ver com a deslocalização de pessoas. Não teve que ver com diferenças territoriais, nem diferenças culturais que não são significativas. A grande diferença está no facto de se terem deslocalizado pessoas. Portugal tem falhado na capacidade de fixar pessoas nos vários pontos da região e as pessoas é que fazem a diferença. Desde o 25 de abril, tivemos à disposição um conjunto grande de recursos e foi na política de fixação de pessoas e na atração de pessoas que falhamos redondamente. Temos que fazer também com que as mais-valias do litoral passem para o interior. Esse esforço tem que ser feito para que se esbatam as diferenças, para que Portugal não incline, parece que está sempre inclinado para o mar. É preciso que as pessoas equilibrem a sua vida no interior.

Que responsabilidades tiveram as políticas governamentais nesse estigma?
Foi uma menor preocupação. Preocupam-se muito em renovar o território, na qualidade do próprio território, mas menos na oferta de oportunidade em que as pessoas vissem que tinham ali futuro, sobretudo os mais jovens. Na década de 70, Portugal tornou-se um país aberto ao mundo e portanto as pessoas e os meios de informação estavam disponíveis. As pessoas não se preocuparam em permanecer no seu local. As políticas falharam foi nisso. E acho que é nessa perspetiva que se deve investir agora, menos em obra física e mais em coisas imateriais, como a atividade cultural. Muitas coisas têm que ser feitas sabendo que não são economicamente rentáveis, por isso é que são públicas, têm objetivos para além do valor económico.
E depois falharam muito nos sistemas de transportes. Por exemplo, numa região em que é mais difícil chegar do ponto A ao ponto B do que à capital, porque há vias mais rápidas… Depois as pessoas não se podem queixar de as coisas estarem centralizadas, porque se calhar até é mais fácil de lá chegar. E nunca se apostou muito num sistema de transporte interno, dentro da região.

Qual seria o papel que o metro mondego estaria a desempenhar nesse panorama?
O metro mondego é entre três municípios – Lousã, Coimbra e Miranda, portanto com é um sítio pequeno e mais perto do litoral. Mas podia ser visto com um embrião de um sistema de transporte inter-regional. Seria talvez uma boa iniciativa de coesão regional.

Qual é o maior potencial da zona centro? É humano, material ou natural?

São as pessoas. A região centro tem, para além do contexto histórico que também forma as pessoas, um conjunto de instituições que formam os recursos humanos aos mais altos níveis. Um vetor que tem que se desenvolver é a capacidade de fixar estas pessoas, para que elas vejam e criem oportunidades na região.

E quais são as suas maiores carências?
As carências são visíveis. Por um lado, um certo défice de oportunidades. Um conjunto grande de indústria tradicional que não se renovou e que é pouco atrativa para pessoas com expectativas mais elevadas. Por exemplo, a percentagem de pessoas da região centro que têm mestrado e doutoramento é baixa. E A oferta para estas pessoas que têm as expectativas mais elevadas é menor, percebe-se que fujam para onde a atividade é maior.

A CCDRC poderá dar um parecer a propósito da reforma administrativa do poder local?
As opiniões da CCDRC são sempre baseadas em razões técnicas, é uma opinião fundamentada. O seu papel será sempre ouvido e respeitado. Como tem obrigações ao nível da organização do território, tem como missão fazer estudos preparatórios. Estamos neste momento a fazer um estudo de regiões NUTS III [Unidades Territoriais Estatísticas de Portugal] para que se possam reorganizar, de maneira a maximizar o impacto no novo programa comunitário, reorganizando as regiões olhando para indicadores técnicos. Este é o nosso papel e é nesse papel que gostamos e queremos estar. O papel político não é o nosso. Gostamos de fazer um trabalho mais técnico e sustentado.

Está previsto, então, uma reorganização das regiões de nível III?
Sim. Está previsto que se pense nele, a decisão não é nossa. Proporemos ao governo, mas a decisão não é nossa.

Até quando está previsto que isso seja pensado?

Até ao final do mês de abril. Mas há várias propostas, já existem algumas. Mas é uma atualização, com indicadores diferentes, vamos adicionar indicadores económicos como emprego, empresas, etc. Na minha opinião não faz muito sentido que existem sub-regiões com três concelhos. As sub-regiões deviam ter todas alguma dimensão.

Depois de 2013, o que crê que irá mudar no planeamento do QREN e na atribuição de fundos da UE?
Já a partir de 2012. Nós estamos numa fase de reprogramação e eu tenho que acreditar que vai mudar alguma coisa. Perante o cenário que é muito diferente do cenário de arranque, 2007/2008, com um cenário económico e social completamente diferente do atual. E é preciso ver se faz sentido ou não ter os mesmos objetivos, as mesmas prioridades. Provavelmente não. Há aqui reajustes a fazer e portanto faz sentido que esses ajustes sejam feitos. Nós temos problemas de curto prazo para resolver – o emprego, o problema crónico de dívida pública. Estes aspetos em 2007 eram muito menos marcados, portanto hoje haverá mudanças neste processo. E não é 2013, é 2012, ainda em maio.

Quais serão as linhas orientadoras do trabalho da CCDRC no seu mandato?
Já falei em quase todas. A primeira é a consciência de região, a região perceber que tem que funcionar em conjunto e distribuir as suas valências pelo território. Ao distribuir parte de conhecimento, aceleramos a distribuição funcional pela região e com isso a criação de mais-valia económica e a fixação de pessoas. A segunda é a de preocupação com a fixação de pessoas. O próximo quadro comunitário tem que ser para resolver esse assunto, a maioria das ações tem que ser para atrair pessoas.

Uma estrutura local já existente poderia substituir o papel da CCDRC?
Não sei, se calhar… Teria que ser uma coisa montada, não há nenhuma já existente que tenha as valências da CCDRC. A maior dificuldade seria outra instituição com as mesmas competências. Só uma estrutura já com historial poderia substituir-nos e eu não estou a ver nenhuma.

Deixou claro que esta estrutura não pretende ser uma figura política. Sendo presidente desta instituição como é que vê o seu papel?
Nós todos somos políticos, mas o nosso papel aqui não é político. Obviamente faz interface com os atores políticos. Mas não sendo político, o papel é acima - não hierarquicamente - desse jogo. Eu gosto de estar neste papel.