Lista E - Miguel Gonçalves - "Esmiuça a Academia"

"A Magna é perigosa para a AAC"

Quinta, 26 de Novembro de 2009

por Acabra .Net

O estudante de mestrado de Ciências Jurídico-Forenses lidera a Lista E e é natural da Lousã. Com 25 anos, não tem experiência em cargos associativos e assume-se como uma ruptura com as políticas actuais. Por Diana Craveiro e João Ribeiro

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"A AAC não é uma mercenária e o dinheiro não é tudo para ela." Foto por Rafaela Carvalho

O que te levou a candidatar à Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC)?

Sinto que tenho o perfil correcto para desempenhar estas funções, sinto que tenho a capacidade de liderança que há muito tempo falta à AAC e sinto que consigo mobilizar. Ao sentir-me útil, não podia deixar de apresentar a minha candidatura contra uma lista do Miguel Portugal, que é talvez a lista que mais ameaça a AAC, que nunca esteve tão próxima de ser tomada de assalto por um grupo de pessoas que são imensamente taxistas e interesseiros. Isto não vai ser um passeio, vai ser uma guerra.

Centras as coisas na candidatura do Miguel Portugal…

É evidente que todos nós sabemos que a candidatura dele é fortíssima e ainda por cima não respeita quaisquer valores que deviam estar presentes na academia. É uma candidatura que minou todas as outras.

A tua lista vem no seguimento da desistência do Alexandre Leal?


A minha lista vem no seguimento do facto de eu ter tomado conhecimento que o Leal não ia avançar e portanto abre-se um eleitorado. Disputo um eleitorado com o Portugal, que é aquele moderado, que não se revê nas franjas de esquerda.

E o que é que a tua lista pode oferecer?


A minha lista pode oferecer independência. Eu sou a única lista que não tem apoio, nem conotação político-partidária. Sou da JSD, mas não tenho o apoio de uma única pessoa dentro do PSD ou da JSD. Na magna manifestei-me contra a esquerda, mas não contra a esquerda em geral, e sim contra as estratégias de luta da esquerda, que considero completamente ineficazes. Eu falo de esquerda, que é a lista A e a lista P, porque são contra as privatizações, etc. São contra tudo! Eu, por exemplo, sou a favor do Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES). Claro que com algum aperfeiçoamento, mas sou a favor, e pelos vistos sou o único.

E porque é que és a favor?

Porque permite uma maior abertura das universidades ao exterior. Alguém que quer representar os estudantes precisa ter coragem para assumir que não se importa que percam algum peso nos órgãos para que as instituições melhorem. Isto não enfraquece o seu poder e faz com que os estudantes possam usufruir de um ensino melhor. O problema é o financiamento. E avanço com números: quero passar de 0,7 por cento do PIB para dois por cento.

O boicote às propinas é a tua única medida de pressão?


Não, essa é uma das grandes medidas com que podemos pressionar o governo. Mas paralelamente queremos continuar a fazer um trabalho de consciencialização e sensibilização das instâncias políticas. A sociedade tem que olhar para a nossa causa como fundamental e tem que entender o ensino superior como uma prioridade para o país.

Ao nível do financiamento com o que é que contas para a campanha?

Os 600 euros em fotocópias da associação e cinco euros dados por cada elemento da lista.

Como é que pensas que poderás atrair mais estudantes para as Assembleias Magnas (AM)?


Eu sou talvez o responsável pelas maiores enchentes nas AM nos últimos tempos. Quando começo a falar aquilo começa a encher.

E achas que é pelos melhores motivos?


Claro que as pessoas começam a dizer “tenho curiosidade em ouvi-lo para ver que bomba é que vai sair dali”. Mas a questão é que há muita gente na magna que partilha das minhas ideias, mas não há ninguém com coragem para as dizer. Se muita gente fica descontente e se sente afrontada, paciência. Estou a defender as minhas convicções. Alguma vez o Portugal tinha a coragem de dizer aquilo que pensa em magna? O Portugal não diz aquilo que pensa, é um calculista, um tacticista.

Caso ganhes as eleições serás presidente numa altura em que serão revistos os Estatutos da AAC. Farias mais alterações além das que estão previstas no parecer pedido pela DG/AAC?

Essa é uma pergunta para a qual não estou habilitado a responder porque nem sequer me debrucei sobre essa situação, mas terei tempo nos próximos tempos de o fazer até porque esse processo de revisão dos estatutos vai prolongar-se muito tempo ainda, pelo que tenho ouvido. Não acho que seja uma questão fundamental para o futuro da AAC e dos estudantes.

Mas pode haver eventualmente algo nos estatutos que penses em mudar?

Sim. Uma das coisas é dar mais poder à DG e tirar poder à AM, em termos de assuntos em que podem deliberar. A AM é altamente perigosa para a AAC.

Isso não seria retirar representatividade aos estudantes?

Os estudantes em magna estão representados por uma minoria. É uma minoria a tomar decisões para a maioria. E decisões erradas. Se tomarem deliberações com as quais eu não concorde minimamente e não as queira executar, demito-me. Eu gosto bastante da ideia da AM mas na prática parece-me muito idealista e tem conduzido a AAC para inúmeros erros.

Achas que deve ser a DG a reunir-se e decidir sozinha o futuro da academia?


Devem sempre auscultar e tomar em grande atenção e, na maior parte das vezes, devem seguir as recomendações do que é discutido na AM. Não podem é estar completamente presos à sua vontade.

Isso não poderá levar a uma arbitrariedade enorme?


Então deixamos de fazer eleições para a DG. No fundo, a AM obriga a que a DG não tenha uma linha de coerência. Não há nada mais importante do que ouvir os estudantes, mas não há nada mais perigoso do que ficar dependente da vontade de meia dúzia de loucos. Eu estou a disponibilizar-me para exercer determinados compromissos. Faz sentido que uma AM esteja constantemente a ir contra o programa das listas que têm ganho sempre por maioria e que têm muito mais representatividade que essas magnas? Não pode continuar a haver deliberações tão abrangentes e tão amplas como aquelas que existem actualmente.

Como vês a implementação do Processo de Bolonha na UC?

A aplicação do Processo de Bolonha está a sofrer muito em virtude do subfinanciamento. Não existem meios humanos nem físicos para que ele se consolide e haja qualidade. Ninguém pode estar contra o Processo de Bolonha. O que nós queremos é um ensino superior que forme mão-de-obra muito qualificada e bem cotada nos rankings internacionais para sermos competitivos.

Concordas que há um afastamento por parte dos estudantes das secções e asoociativismo?

Entendo que já há tanta distracção e tantas formas de diversão e tanto comodismo que não é por haver Processo de Bolonha ou não. As pessoas são cada vez mais comodistas, e não participam neste tipo de actividades e isso é quase um fenómeno irreversível. Devemos é ter secções boas que possam dar boas condições a quem queira usufruir delas. Mas na área das secções acho que o trabalho que tem sido desenvolvido, principalmente no último ano, é positivo e merece ser continuado. Uma das questões que proponho é dar início à construção de uma nova sede e um licenciamento para mais dois ou três pisos para tornar financeiramente viável a própria sede.

Caso ganhes vais continuar com o contrato que a AAC tem com o InTocha?

Isso terá que ser muito bem analisado. O que posso dizer é que o contrato, à partida, em termos de valores parecia bom. Só que quem o fez ou não sabia o que estava a fazer ou sabia bem de mais e não teve problema em prejudicar a AAC.

De que forma achas que a AAC é prejudicada?

Quando se põem cláusulas no contrato que responsabilizam a AAC por eventuais incumprimentos que não dependiam dela, em termos de licenciamentos.

E em termos do retorno financeiro que a AAC obtém do contrato, achas que é rentável continuar sem o contrato? Que fontes procurarias?

A AAC não é uma mercenária e o dinheiro não é tudo para ela. Penso que conseguimos negociar um contrato tão bom ou melhor com outras condições que não foram pensadas na altura.

Quanto às prescrições, é uma questão perdida?

Não gosto de ver as pessoas no ensino superior a andar por aí. Se às vezes as pessoas não têm o discernimento para pensar por elas próprias, devemos ter alguma intervenção e sancioná-las de modo a incentivá-las a ter algum sucesso escolar.

Achas que prescrições são incentivadoras?

Não. O que a lei diz é que já que o estudante está mal fica mais um ano sem estudar. Temos que arranjar um regime alternativo que dê às pessoas do agregado familiar do estudante o conhecimento da sua real situação.

As prescrições fazem parte do RJIES, e há pouco disseste que concordavas com o regime...

Concordo com o RJIES em termos de participação e abertura da universidade. O problema é que também as entidades externas levantam algumas dúvidas quanto à sua importância no Conselho Geral. Porque é que elas lá estão e não estão outras? Porque é que é o BPI e não outro? Isto devia ser explicado.

És a favor da passagem da UC a fundação?

Não, não sou nem tenho conhecimentos para falar sobre isso, mas não é algo que devamos olhar como o diabo que foge da cruz. Vamos analisar a situação porque se isso permitir a entrada de verbas que resolvam muitos dos nossos problemas, é bem-vindo porque o que queremos é atrair investidores para as nossas faculdades.

Mas assim a universidade deixaria de ser independente.

Não porque a universidade passaria a ter um regime que fosse o melhor para formar uma mão-de-obra altamente qualificada porque o que as empresas querem é grandes profissionais. Eu sairia melhor preparado e mais competitivo e até teria mais colocação porque essas empresas já estavam à minha espera porque tinham investido na minha formação.

Se perderes as eleições vais continuar a fazer oposição?

Depende se me sentir desmotivado e desmoralizado. Se tiver uma derrota estrondosa obviamente que sinto que os estudantes não querem pessoas como eu a ter papéis de destaque nos órgãos, portanto tenho que me retirar. Se tiver uma boa votação, independentemente de ganhar ou não, sinto que represento muita gente e que posso continuar.