A luta não se faz só do confronto físico
Quarta, 14 de Dezembro de 2011
por Acabra .Net
Nos recônditos do pavilhão número um do Estádio Universitário, lá bem no fundo, existe uma sala. Apertada, com um projeto de ginásio ocultado por colchões que a dividem em dois, postos que estão ao alto, cabe nela um ringue, mesmo à medida. É ali que, durante a semana, várias secções de lutas da academia se reúnem para treinar. Por Fernando Sá Pessoa
Da entrada até ao "palco", curto, vão dois palmos, não mais. E o ambiente que se respira na sala, antes de mais um treino de boxe, é de descontração. Percebem-se brincadeiras e provocações amigáveis, o relaxamento normal antes do início. "O boxe é golpes de punhos e nada mais", afirma o instrutor Bruno Cordeiro. "Já o kickboxing envolve também as pernas", acrescenta.
O aquecimento é feito com relativo à-vontade, devido ao muito espaço disponível. Mas fora da sala, pois claro. À volta do campo onde crianças praticam hóquei no Estádio Universitário, seis elementos – entre os quais duas são raparigas -, preparam-se para o treino com uma corrida a passo lento. Já no seu decorrer, os ânimos elevam-se um pouco e os treinadores parecem ser os mais empenhados. A gestão de recursos obriga a que dois combates entre instrutores e alunos se desenrolem ao mesmo tempo, enquanto os outros esperam de fora. No balouçar das cordas que roçam a parede, cai um dos formandos, após golpe de pé do tutor. "Isto aqui não é futebol", brinca Francisco Rodrigues, praticante de ju jitsu que assiste, de fora. Tudo normal. A descontração dá lugar à seriedade que, envolvida em suor, começa a pesar. Os ânimos são fortes e não há lugar para desconcentrações. Em contraste com a luz, o fumegar das costas dos atletas comprova-o.
Desportos competitivos
No caso da secção de boxe, não é fácil de alcançar resultados competitivos. Apesar do balanço muito positivo do último ano, tanto o instrutor como o seu homólogo Paulo Nogueira são expeditos em concluir que é difícil assegurar regularidade contínua, quando a maioria dos praticantes são estudantes. "De trinta atletas, aproveitam-se cinco ou seis para a competição", afirma Bruno Cordeiro.
Noutra secção da academia, o judo, os valores são nobres. Cultiva-se, num dos maiores clubes da modalidade que existem no país, "o respeito, a amizade e o ajudar o próximo". Quem o diz é Nuno Silva, orientador da secção. E, não obstante o facto, o nível competitivo mantém-se alto.
Já na secção de lutas agarradas, onde a greco-romana e a luta livre têm maior dimensão, o treinador Miguel Silva é realista ao admitir a falta de competitividade. No entanto, ressalva-se com o bem-estar físico e mental que é trabalhado nos praticantes. "Ensinamo-los a ter hábitos de disciplina e espírito de sacrifício", adianta.
Preconceitos à parte
Um outro aluno acaba um dos combates, ainda durante o treino, com uma mazela na testa. O "confronto" com o professor torna-se vigoroso e ambos acabam abraçados, como que refreando os acalorares. Porém, não se iludam os céticos, porque as vantagens veem-se também nestas situações. Garante Paulo Nogueira que o aumento do autocontrolo e a descida do stress, associada aos benefícios cardiovasculares são importantes proveitos deste tipo de modalidades. A verdade, sorri ao dizê-lo, é que "muitos dos alunos entram com os níveis de agressividade altos e saem como cordeirinhos".
No caso das lutas, o treinador olha com alguma tristeza para a confusão que as pessoas fazem entre a luta livre e o wrestling. "É uma palhaçada contra a regra, que vai contra os princípios que nós defendemos aqui", acusa. Porque, segundo o mesmo, as consequências físicas que advêm da prática das lutas só existem na alta competição. "É como no futebol", compara, onde "os jogadores também acabam com os joelhos desfeitos".
"Há bolas de hóquei no tapete"
Enquanto a sala, limitada, acolhe o treino de boxe, cá fora, na extremidade oposta do pavilhão, decorre um treino de taekwondo. Os uniformes brancos fazem a sua harmonia contrastar com a loucura que o campo de hóquei, com crianças trajadas de preto, alberga. Queixando-se de não ter casa própria, a instrutora Ana Santos afirma que, "por vezes, as bolas de hóquei vêm ter ao tapete, enquanto pessoas passam por cima deles".
Nisso, as secções de boxe e de lutas estão melhor. No seu cubículo - duas máquinas de pesos e um ringue entrincheirado -, Bruno Cordeiro resigna-se: "é o que temos e estamos satisfeitos aqui no cantinho". Apesar disso, a expressão de conformação não deixa de contrastar com o instrutor de judo, que se congratula com "uma das melhores salas do país".






