A água como possível fonte de conflitos
Segunda, 26 de Julho de 2010
por Rafaela Carvalho
A ameaça de escassez dos recursos naturais, o "gigantismo humano" e a "assimetria na distribuição" da água potável mundial são algumas das falhas apontadas por Viriato Soromenho Marques à gestão humana do recurso que está no centro de todas as discussões do II Festival das Artes
Apesar de querer deixar "o futuro em aberto", Viriato Soromenho Marques, membro do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS), admitiu ontem, 25, a possibilidade de os recursos hídricos, em especial as "263 bacias internacionais partilhadas por vários países", virem a ser fontes de conflito na eventualidade de a "tendência global" para a escassez de água doce se vir a concretizar graças às alterações climáticas.
Na conferência "O rosto da água" que decorreu na Sala Aqua da Quinta das Lágrimas, o também ex-presidente da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza, acredita que a solução para esta questão pode passar pela "criação de acordos internacionais" semelhantes aos que coordenam a gestão do rio Danúbio.
Além disso, Soromenho Marques considera que a "privatização da água, a equidade e o seu preço como instrumento de poupança e a promoção do uso eficiente e da poupança deste recurso" devem ser prioridades no pensamento a longo prazo das sociedades, ao contrário do que tem sido feito até agora.
Também por isso o membro do CNADS ressalvou que a água não deve ser um bem totalmente gratuito uma vez que essa liberdade seria "um convite ao desperdício".
"Gigantismo desumano"
Outra das críticas apontadas por Viriato Soromenho Marques às sociedades e à exploração de recursos prende-se com a construção de barragens criando grandes superfícies de água que levam à deslocação de milhares de pessoas e que "apesar de trazerem benefícios, estes não são para os desalojados, mas sim para os consumidores dos produtos que daí resultam".
O ex-presidente da Quercus refere que "o problema aqui é o gigantismo humano" incentivado pela capacidade de produção de uma barragem que "no seu auge vai produzir 40 vezes mais que uma central de carvão média e 20 vezes mais que uma central nuclear média".
No entanto, a grande preocupação está na desactivação destas grandes estruturas, "um problema que não costuma ser pensado".
Binómio "Abundância/Escassez"
Segundo Soromenho Marques, outro das questões que fogem à consideração dos países desenvolvido é o "problema da assimetria na distribuição" da água potável total. Tendo em conta que existem "2 mil metros cúbicos de água potável por habitante", o membro da CNADS afirma que "sensivelmente metade da população humana" não tem acesso aos mesmos. O especialista acredita que o problema começa na "incapacidade da comunidade humana em permitir a cada pessoa que nasce o acesso à água".
É este tipo de gestão que Soromenho Marques considereda negativa e chama de "binómio abundância/escassez", alertando que apesar de renovável, a água "não é um bem infinito" e "está longe de ser um bem adquirido".
O ex-presidente da Quercus acrescenta ainda, lançando o aviso, que a má gestão dos recursos naturais poderá levar a "uma crise ambiental global que poderá corresponder a um colapso" à escala mundial o criador de "um surto de esquecimento extraordinário da cultura actual".
Energia nuclear no Mondego
Levantada, por um membro do público, a questão da não existência de uma central nuclear no rio Mondego, exemplo único nas principais bacias ibéricas, Soromenho Marques considera que "há questões relacionadas com as centrais nucleares que continuam não resolvidas", nomeadamente os problemas relacionados com segurança e gestão de resíduos e contributo destas para a proliferação social. O membro do CNADS refere ainda que "no caso português, actualmente não faz sentido falar em energia nuclear".






