A crise está a subir-nos à cabeça

Terça, 17 de Abril de 2012

por Acabra .Net

Apesar de uma certa relutância em relacionar pressão financeira com psicopatologia, há uma opinião que une os especialistas: em tempos de crise, as medidas de apoio social revelam-se absolutamente essenciais. As experiências prévias dizem-no. E diz quem trabalha com os estudantes que os quadros depressivos e ansiosos estão a aumentar, bem como os seus comportamentos de consumo, que vêm refletindo a crise. Por Inês Amado da Silva

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A crise económica funciona como precipitante para a perturbação Foto por ilustração por Tiago Dinis

A História tem-nos contado que, em situações de crise, económica e política, a austeridade e o desinvestimento em apoios sociais não têm tido boas relações com a saúde mental das populações. Note-se, por exemplo, que a disfunção da antiga União Soviética e dos Países Bálticos trouxe um aumento do número de suicídios aos países afetados, considerados ainda dos menos desenvolvidos da Europa. O exemplo é dado por Álvaro de Carvalho, coordenador do Plano Nacional para a Saúde Mental, que vai estar a decorrer até 2016 e está integrado na Direção Geral de Saúde (DGS). O psiquiatra salvaguarda: “provavelmente não vamos conseguir perceber, em Portugal, se a crise vai trazer mais ou menos suicídios”, uma vez que, para que os registos sejam fiáveis, é necessário que sejam feitos “durante um período mínimo de três a cinco anos”, acrescentando que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a União Europeia (UE) se têm preocupado com esta situação.

Apesar das demais condicionantes, o nível de desenvolvimento de um país e a intensidade do seu Estado-providência mostram-se relevantes. Num estudo da OMS Europa, de 2009, no qual é feita uma análise comparativa entre Suécia e Espanha, verificou-se, em ambos os países, uma elevada taxa de desemprego. “Enquanto na Suécia a situação foi reconhecida oficialmente e houve reforço das intervenções sociais” – como o subsídio de desemprego e a prestação de cuidados médicos de proximidade – “em Espanha, o mesmo não se verificou”, explica. Sendo os países nórdicos conhecidos pelas elevadas taxas de suicídio, os resultados das políticas sociais são reveladoras: “na Suécia, mesmo com a crise de desemprego, houve um decréscimo sustentado e progressivo da taxa de suicídio; em Espanha, a taxa continuou a aumentar mesmo depois de o desemprego ter descido”.

Pela falta ainda de uma base empírica, os especialistas mostram relutância em afirmar que, em absoluto, a crise económica esteja diretamente relacionada com o aumento de casos de doença psicopatológica. No entanto, o psiquiatra acede: “isto leva-nos a considerar que, nas situações de crise, tanto ou mais que nas medidas da saúde mental tem que se ter em atenção medidas políticas que passam pelo apoio social”.
Os estudantes, espelho de vulnerabilidade social

“E se eu não conseguir? Como vai ser? E se os meus pais não têm recursos para me manter?” – é Ana Carvalhal de Melo, psicóloga do Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (GAP-SASUC), quem empresta a voz a alguns dos receios da população estudantil que lhe chegam ao consultório. A psicóloga declara não ser ainda possível afirmar se há um aumento da procura da consulta de psicologia do GAP-SASUC no corrente ano. Assegura, no entanto, que “as pessoas têm mais a preocupação económica e trazem isso para a consulta”, traduzida em vontades como “não ser um peso para os pais, ter medo de perder a bolsa, de prescrever e de não ter recursos económicos para voltar a estudar”, enumera.

Explica Ana Melo que um aluno que se vê a braços com uma dificuldade económica que não tinha “reage emocionalmente a isso”. Os efeitos da crise aumentam, assim, “a vulnerabilidade dos alunos para o desenvolvimento de quadros psicopatológicos relacionados com a ansiedade e a depressão”, declara a psicóloga.

Segundo Ana Melo, “a crise económica funciona como precipitante” para a perturbação, através da “vivência de situações adversas” ou apenas de um “medo antecipatório”. Aumenta uma “perceção de risco e de vulnerabilidade” que, apesar de se tornar maior aos olhos dos alunos, é verdadeira, uma vez que “há realmente um aumento do risco”: “hoje, os alunos estão muito mais atentos à situação económica dos pais - muitos perderam o emprego e estão em risco de perder coisas, nomeadamente casas”.

Os constrangimentos financeiros vêm, desta forma, roubar aos estudantes capacidades para lidar com as perdas que as crises trazem: há uma diminuição da flexibilidade cognitiva e emocional, “prejudicando o desempenho académico” ao trazer “níveis elevados de angústia” e dificuldade em encontrar estratégias adaptativas, o que pode levar a que “muitas vezes, coloquem a possibilidade de abandonar precocemente os estudos”, assevera. “Efetivamente, as condições de carência, de pobreza e de vulnerabilidade social vão ativar estas situações. Sabemos que existem pessoas mais vulneráveis, e quem tem tendência para fazer estes cenários antecipatórios agora tem o terreno fértil”. Ana Melo comenta ainda que, muitas vezes, são as assistentes sociais dos SASUC que reencaminham estudantes em risco de perder a bolsa para a consulta, “para ver se há alguma modificação no seu método de estudo, se ultrapassam algum problema emocional que os possa estar a prejudicar”.

A psicóloga explica que, neste âmbito, o GAP-SASUC tem feito um trabalho no sentido de ajudar os estudantes a desenvolver as estratégias de ‘coping’, usadas para lidar com situações de risco – “para que o aluno não se desorganize, mas se mobilize para os objetivos que o vão ajudar a não ter que se deparar com a situação que teme”. Ana Melo ressalva, no entanto, que “há todo um conjunto de apoios sociais que têm que ver com o Estado-providência e que seria importante garantir”.

Uma felicidade com pés de barro
Para Carlos Braz Saraiva, psiquiatra do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, a população portuguesa vive uma “situação confrangedora, que é a de se confrontar com o próprio passado das últimas dezenas de anos”: “o país adquiriu determinados padrões de vida, semelhantes a grande parte dos países da UE, mas chegámos à conclusão de que o gigante tinha pés de barro, ou seja, não nos preparámos em termos macroeconómicos”. Para o médico, é indiscutível o aumento dos quadros depressivos e ansiosos que frequentemente coexistem com perturbações do sono, níveis elevados de ansiedade, angústia e “uma frustração pela incapacidade de dar a volta ao problema. As pessoas adquirem a noção de que não estão a controlar certos fatores externos que as rodeiam”.

“A minha convicção é de que estas patologias estão a aumentar”, afirma o médico, apontando alguns indicadores que poderão contribuir para essa perceção, como o facto de o país ser conhecido por um consumo excessivo de antidepressivos e ansiolíticos: “isso é um problema de saúde pública, mas seria bom se nos questionássemos sobre o seu porquê” que, sendo uma tendência “que já vem de há alguns anos”, pode “querer significar algo mais do que a própria crise económico-financeira”. Para o psiquiatra, a questão está em saber se a tendência é justificável com o “sofrimento social”, e assevera que o país passa também por um “problema de insensibilidade social”.

“Claro que os portugueses têm as suas idiossincrasias, somos um povo que tem uma capacidade de resignação muito grande”, afirma Braz Saraiva. Num estudo da OCDE, iniciado em 2010 e feito sobre 40 países, Portugal surge como o terceiro país mais infeliz. Para caracterizar uma sociedade que considera “doente”, o psiquiatra evoca os valores enumerados pelo sociólogo Émile Durkheim, já no século XIX, e o seu conceito de anomia (a sensação de perda de identidade que o indivíduo experimenta na sociedade moderna): “o desemprego, os divórcios, a perda da compaixão, a perda da espiritualidade, o egocentrismo, o hedonismo: isto tem a ver com uma sociedade doente”, lamenta, “e são aspetos que considero serem a anomia do século XXI”. Aludindo ao caso do suicídio de um cidadão grego, de 77 anos, na Praça Sintagma, em Atenas, o psiquiatra anota: “a História da humanidade ensina que os suicídios em público têm a ver com a dignidade, e a perda da dignidade é algo que gera sofrimento intolerável e interminável”.