"A ciência que se faz no Instituto do Mar da UC tem sido de excelência"
Terça, 14 de Fevereiro de 2012
por Acabra .Net
José Xavier, cientista polar, é investigador do Instituto do Mar da UC, desde 2009, e soma já sete expedições à Antártida. Depois da licenciatura em Biologia na Universidade do Algarve, em 1997, rumou até Cambridge, onde também é investigador. Procura descobrir como os animais do polo sul se adaptam às alterações climáticas e recebeu, no último ano, o prémio Martha T. Muse, o “nobel” para a ciência polar. A paixão pelo mar e a vontade de levar a ciência a todos marcam o precurso de José Xavier. Por Filipe Furtado
Como foi este percurso até à Antártida?
Foi um processo relativamente simples, até era mais giro perceber por que é que segui Biologia. Sempre gostei muito do mar. Nasci numa vila, em Azambuja, que fica a 50 quilómetros da praia. Então, ir para a praia, para mim, era um privilégio. Sempre que estava na praia estava muito contente: praia, biquínis, ondas, sempre fiz muito desporto ligado às ondas. Estava de férias. Depois decidi que queria Biologia, e só a partir do terceiro ano de faculdade é que percebi que precisava de algo mais. Ir às aulas era porreiro, mas faltava algo, não sabia o que era ser cientista. Será que quero ser cientista? Será que quero dar aulas no liceu? O que é que eu vou fazer? Meti-me em vários projetos científicos com professores de que gostava. Passados dois ou três anos, entrei para estágio, falei com uma professora no Algarve e disse-lhe que gostava de dar o passo a seguir. No mundo ideal, eu queria trabalhar com o melhor do mundo. Então, havia um colaborador dela que estava em Cambridge. Já me conhecia há três anos. É raro um professor conhecer um aluno tão bem, já sabia o que era capaz de fazer, e perguntou-me: “gostavas de ir para Cambridge?”. Fui para Cambridge, acabei o estágio e gostaram tanto de mim a partir daí que trabalhei um ano para eles dentro do Instituto da Antártida, a British Antartic Survey, já a candidatar-me para doutoramento, e depois de doutoramento para pós-doutoramento. Fiquei como investigador convidado. Estou aqui como investigador e sou investigador em Cambridge. Isto começou em 97, até agora. Em 2005, voltei a Portugal e ajudei a estabelecer o comité Português para o Ano Polar Internacional.
Recebeu, no ano passado, o prémio Martha T. Muse.
Ganhei o prémio da fundação americana Martha T. Muse, que é o equivalente ao Nobel para a Ciência Polar. Agora, imagina: dão-te 100 mil dólares para a tua conta bancária, não é para a ciência. Tens americanos, ingleses, franceses que fazem ciência há 200 anos. Nós começámos há cinco anos. O impacto que tivemos foi muito grande. A ciência que se faz aqui, no Instituto do Mar da Universidade de Coimbra, tem sido de excelência. Estou aqui desde 2009.
Quais os objetivos das expedições à Antártida?
O projeto tinha como objetivo compreender como os animais na Antártida são capazes de se adaptar às alterações climáticas ou não. O que fui estudar foram duas espécies de pinguim [Gentoos e Chinstrap], que se estão a reproduzir ao mesmo tempo na pior área do planeta. São pinguins adaptados às águas frias e é ali que as águas estão a aquecer rapidamente. O que queríamos ver era como é que estavam a lidar com isso e como é que estavam a competir por comida.
A que resultados é que chegaram?
Este ano, concluímos que estavam a comer a mesma coisa, o que para nós foi surpreendente. Não havia qualquer estudo de dieta naquelas colónias, Hannah Point e Sando Point, em Livingston Island. Estavam a comer a mesma coisa, o “krill”, o camarão do antártico, o elemento mais abundante. O que eu esperava, seguindo Darwin, é que se há duas espécies que estão a ocupar o mesmo habitat e a comer a mesma coisa, mais cedo ou mais tarde, uma vai desaparecer. Isto é a teoria. O que temos é duas espécies que se estão a reproduzir, a ocupar o mesmo habitat, a comer a mesma coisa e os mesmos tamanhos. Está aqui algo errado. A dinâmica como exploram o meio ambiente, que nós não conhecemos, começa a ficar interessante. O que queremos perceber agora é como estes animais exploram o meio ambiente quando vão à procura de comida, não sabemos isso. É o que queremos fazer no futuro: pôr pequenos “GPS tracking tags” nas costas deles, para saber a que profundidade e a que áreas vão.
Como é que se lida com os pinguins?
Uma das coisas muito interessantes em relação à Antártida é que os animais não têm medo de nós. É engraçado: muitos deles, se não te mexeres, é que vêm para ao pé de ti. Claro que, se temos de os estudar, temos de ser mais proativos. Temos uma rede, do estilo de apanhar borboletas, mas mais rija. Depois, basicamente, é um “sprint” de dez segundos: agarramos os pinguins, sempre pelas pernas. Tínhamos o José Seco, estudante, que os agarrava contra o peito e, passados dez segundos, o pinguim relaxava. Agarrávamos o pinguim por cima das asas, não por baixo, medíamos o bico, retirávamos as penas e sangue. Era um procedimento de cinco a dez minutos. Marcávamo-los com uma pontinha preta, para não trabalharmos mais com aquele animal. O pinguim olhava para nós: “o que é que se passou aqui?”. E continuava com a sua vidinha.
Como é viver na Antártida?
Antes de ires para a Antártida, tens de te preparar psicologicamente. Há uma preparação de vários cenários, como lidar com pessoal que beba um bocadinho de mais ou alguém que tenha um problema de stress, algo que não tenhas equacionado. “Estou no fim do mundo, não me quero adaptar a isto e vou entrar em depressão”. Se vês um colega teu a fazer isso, como vais proceder? Isto é muito fácil, porque temos um plano de trabalho muito exigente. Preparar esta expedição demora dois ou três anos. Estás muito focado, estás muito concentrado com a ciência. O navio abastece e recolhe coisas no início e no fim de cada época com comida para mais de um ano, para não haver problemas. A reciclagem é levada ao extremo.
E a alimentação?
Temos uma imagem de junho, de quando passou um navio e trocámos garrafas de whisky por um cesto de maçãs. Damos valor a essas coisas muito simples. Depois de dois ou três meses, passas das frutas e dos legumes para os congelados e enlatados. Tínhamos de cozinhar de quatro em quatro dias, limpar a base uma vez por semana. Tínhamos a noite do cinema às quartas e aos domingos; quem cozinhasse tinha de fazer uma sobremesa e depois víamos um filme a comer pipocas. E quem cozinha pode escolher a música. Ouvíamos a BBC e o relato da bola.
A ligação com Cambridge é para continuar?
É o ideal. Para sermos dos melhores temos de trabalhar com os melhores. O que queremos, em termos de estratégia, em Portugal, é trabalhar com os melhores - definimos como estratégia trabalhar com o Reino Unido, Espanha e Brasil. Espanha porque é aqui ao lado e já são bons; o Brasil porque fala a nossa língua, e o Reino Unido por que é dos melhores do mundo. Tenho trabalhado com eles desde sempre. Eles têm as bases, os navios. Têm uma infraestrutura que nos pode ajudar bastante.
Depois dos vários programas educativos, como o Latitude 60!, achas que há uma maior recetividade em relação à ciência?
Essa parte de mostrar o que se faz é o teu dever como cientista. Para seres pago pelos teus cidadãos tens o direito e o dever de mostrar esses conhecimentos. Se chegasse aqui, há dez anos atrás, nos sentássemos aqui nesta mesa e dissesse que estudo pinguins na Antártida… pronto, traz aí mais uma cerveja que este gajo está bêbedo. Era impossível. Quebrámos muitas barreiras psicológicas, mostrámos que somos muito jovens mas muito bons. Somos reconhecidos nacionalmente e internacionalmente, e temos essa preocupação educativa muito grande de levar a ciência a todos.






