A arte de rua dentro da casa

Terça, 21 de Fevereiro de 2012

por Acabra .Net

Até ao dia 16 de março, o resultado de uma residência artística peculiar, decorrida em Lagos, visita Coimbra. A arte de rua dentro da casa da esquina

Numa tela de grandes dimensões, os três pastorinhos surgem pela técnica do “stencil”. Estão ao lado de uma Virgem Maria que aparece não sobre numa nuvem normal, mas de fumo de uma explosão, e as cores da roupa que envergam sugerem uma espécie de efeito psicotrópico. Francisco Marto tem um lacinho vermelho de campanha contra a SIDA na lapela e metralhadora na mão.

Rodeando esta grande tela, estão duas malas abertas que contam duas memórias diferentes. Um álbum de Maria Benta, artista de Lagos, parece personificar uma das histórias: os objetos têm tons de vermelho, dourado, pérola e pó. Um gira-discos está na base da mala, forrado por um veludo coçado. “Muitas das coisas fazem parte do espólio dela”, conta a responsável da direção da Casa da Esquina, Filipa Alves. Do lado oposto da sala, uma outra mala conta a história de um barbeiro: cabelo, pincéis, lâmina enferrujada. Bilhetes para o Sporting em 1957. Pequenas imagens de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus.

A primeira edição do ARTUR – Artistas Unidos em Residência, promovida pelo Laboratório de Actividades Criativas (LAC), sediado em Lagos, foi o mote para a criação destas obras de Jorge Pereira. Durante 20 dias, no verão de 2011, seis artistas convidados estiveram à “descoberta do espaço urbano como cenário para a criação artística”, o mote da residência, e ocuparam não só a antiga cadeia de Lagos como também o espaço urbano envolvente. Explica Filipa Alves que o que foi feito foi “pegar em celas e dá-las aos artistas” e “cada um, dentro da sua cela, criou um espaço”.

O melhor que se faz na arte urbana está agora para ver em Coimbra, na Casa da Esquina, até ao dia 16 de março. Não deve deixar-se de visitar as obras de alguns dos nomes mais proeminentes da cena mundial da arte de rua – tanto internacionais, como o grego Alexandros Vasmoulakis e o brasileiro Antonio Bokel, como quatro outros artistas nacionais.

ARTUR adaptado à Esquina
Para além de ser um dos artistas em residência, Jorge Pereira é também membro da direção do LAC. “Trabalho muito o retrato dos ícones culturais”, admite, como Amália e José Afonso, bem lembrados na exposição, e afirma fazê-lo “não tanto por crítica social”. O artista desmistifica, assim, a associação que é muitas vezes feita da arte de rua à crítica social, assegurando que, atualmente, “muitas das grandes obras que se fazem” nesta área, geralmente comissariadas ou pagas por instituições e câmaras municipais, “são simplesmente decorativas ou têm mensagem do artista”.

Por oposição, o trabalho de maismenos, nome artístico de Miguel Januário, surge dentro de um espectro de crítica social. Um autoclismo ligado a uma urna (que remete imediatamente para Marcel Duchamp), uma corda que enforca uma gravata. Uma evocação do Estado Novo através de um Salazar coisificado no objeto de cozinha. “O trabalho que o Miguel faz na rua, ou seja onde for, é um trabalho de crítica social assumido”, aclara Jorge Pereira.

A obra dos outros artistas presentes alinha mais com a arte de rua pela forma: tal como Jorge Pereira, Paulo Arraiano e Antonio Bokel utilizam madeiras recicladas para os trabalhos expostos, invocando motivos tribais e uma reflexão mais espiritual. Por sua vez, a obra de Vasmoulakis evoca questões de género através de uma espécie de um fauvismo contemporâneo, risonho e cínico, expresso em telas a óleo.

“Houve trabalhos feitos diretamente nas celas”, explica Filipa Gonçalves, o que impossibilitou a transposição completa da exposição para Coimbra. Adaptada agora à Casa da Esquina, ela ganha, ainda assim, contornos interessantes. Jorge Pereira estava longe de prever que a tela com os três pastorinhos iria ser exibida na casa ao lado daquela em que a irmã Lúcia terá passado os últimos anos da sua vida, no Carmelo. Do lado de fora da Casa, o artista deixou também repercutidas pelo “stencil” duas noviças, descalças e com máscaras de gás. “Não tinha noção da vizinhança”, brinca. É uma crítica? “Acho que ficou bastante bem encaixado: as duas freiras a olharem, porque estão num muro de fora e são visíveis das janelas das senhoras. Não é nada crítico em relação à igreja, nem a elas próprias, mas são acasos que acontecem”.