A Antecipada Morte da Monarquia
Sexta, 25 de Junho de 2010
por João Gaspar
“O Fim”, de António Patrício, foi retratado pelo Centro Dramático de Évora em mais um dia do IV Festival das Companhias
Um início no escuro. Ouvem-se passos e uma voz de narrador surge a descrever o espaço que não existe. Uma luz ilumina a sua narração serena e pausada, acompanhada de música. É o início de “O Fim” de António Patrício.
A peça de teatro encenada por Victor Zambujo e apresentada no Teatro da Cerca de São Bernardo, no dia 24 de Junho, surge no âmbito do Festival das Companhias. Dentro do teatro, o público quase esgotou a sala para presenciar “O Fim”. Uma história sobre a queda da monarquia, escrita um ano antes de esta cair com a Instauração da República.
Um duque esquizofrénico que coxeia curvado pelo palco, uma aia que impõe austeridade e uma rainha que deambula pelos seus devaneios. Todos carregados por uma maquilhagem forte e expressiva. O ministro e o desconhecido, personagens acessórias, que saltam para o palco, vêm dar forma à sátira que se coloca sobre a monarquia e todos os seus vícios infundados em esperança. As personagens quase que parecem modelos a desfilarem numa passerelle. Enquanto as personagens entram, o narrador surge para apresentá-las numa descrição poética, adornada de palavras iluminada
A rainha, louca e bipolar nos seus comportamentos, surge para alumiar a peça. Uma grande representação de Rosário Gonzaga interrompeu o sono de um espectador menos entusiasmado. Valeu a pena acordar. Os berros acutilantes e desprovidos de sanidade fazem da rainha uma pessoa instável, imprevisível e mergulhada numa loucura que parece não desaparecer. Cultiva a morte e canta para ela, numa canção que o desafinar da voz dá mais força à sua personagem febril. A rainha vagueia pelo palco, talvez pressentido a morte da monarquia, a lançar lamúrias na escuridão, onde só a cara se vê.
A música, quase robótica e desumana, acaba por tirar a possível importância da mesma, contudo, a peça termina com a melhor representação possível da Monarquia. No Simbolismo de António Patrício, a Rainha, de pé em frente ao trono, com o país arruinado, afirma: “Tenho fome”.
No final da peça “O Fim”, houve ainda tempo para uma conversa entre o pessoal do Centro Dramático de Évora e o público. O tema em foco foi a interpretação do texto de António Patrício de forma dramatúrgica e cénica, surgindo vários pontos de vista sobre o Simbolismo do dramaturgo.






