A Alta de Coimbra vista com uma perspectiva diferente
Domingo, 18 de Julho de 2010
O local onde residiram vários escritores portugueses conceituados foi ontem, 17, espaço de descoberta. Um grupo de participantes no percurso pedonal “Coimbra, um outro olhar”, promovido no âmbito do Festival das Artes, caminhou pela Alta, numa viagem pela história de Coimbra, e foi ainda confrontado com as surpresas preparadas pelos actores da “Casa da Esquina”.
A manhã de sábado é iluminada por um sol abrasador. À porta do Museu Nacional Machado de Castro Branca Gonçalves, guia turística do Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Coimbra, aguarda a chegada dos participantes num percurso alternativo pela Alta da cidade. Munida com a lista dos inscritos, Branca explica que "Coimbra, um outro olhar" é uma adaptação de um circuito de exteriores com um ano, "para o Festival das Artes", com a inclusão de "pequenos apontamentos cénicos ligados a escritores que viveram ou passaram pela cidade e sobre ela escreveram". O grupo, formado por cerca de 35 pessoas, sabia que havia actores envolvidos no percurso, mas ninguém sabia onde, nem quando, nem como.
Os participantes aguardavam à sombra o início da visita, enquanto ao sol a temperatura aumentava e se tornava desconfortável. Tinham sido feitas recomendações no sentido de cada pessoa trazer água, chapéu, protector solar e roupa e calçado confortáveis. No entanto, poucos foram os que seguiram à risca as indicações fornecidas.
O berço de Coimbra
Por volta das 11h00, Branca Gonçalves reuniu o grupo heterogéneo, composto por pessoas de várias idades e, apesar de o número de portugueses predominar, de diferentes nacionalidades. "É nos alicerces deste edifício que a história da cidade começa", afirma a guia, para explicar a razão da escolha do Museu Nacional Machado de Castro como ponto de partida.
Os primórdios da história de Coimbra estão ligados ao fórum romano do qual se podem encontrar vestígios no museu. Na época em que o criptopórtico e as galerias subterrâneas foram construídos, Coimbra era um pólo comercial chamado Aeminium. Não era a cidade mais importante – esse estatuto pertencia a Conímbriga, que alojava a sede do bispado – mas os terrenos férteis banhados pelo Mondego eram alvo de atenção e cobiça. Ao longo dos séculos vários povos tentaram conquistar o que hoje é Coimbra para possuir as terras: romanos, visigodos, godos, alanos, suevos e muçulmanos fizeram parte da cultura da cidade. Em 1064, a cidade foi definitivamente conquistada, mas nessa altura já o nome Coimbra tinha sido adoptado (a alteração ocorreu durante as invasões bárbaras e a mudança da sede do bispado de Conímbriga para Aeminium).
Com muito mais informações e curiosidades, Branca Gonçalves monta um puzzle da história da cidade, para o grupo que a acompanha. Ainda sem abandonar o museu, explicam-se as origens do Machado de Castro e do homem com o mesmo nome; apresenta-se a Igreja de São João de Almedina (que partilhava o nome do padroeiro com a igreja que actualmente aloja o Café de Santa Cruz) e fala-se também do que levou ao nascimento da alta universitária, como hoje é conhecida. A destruição das casas e negócios que antes existiam, o realojamento dos moradores nos recém-criados bairros de Celas e Norton de Matos e o funcionamento dos hospitais da universidade foram motivo de curiosidade e entusiasmo para os turistas.
Escritores e estendais
O grupo seguiu em direcção ao Largo de S. Salvador, um local cuja toponímia se manteve ao longo dos anos por pressão popular. É no largo que o grupo se depara com a primeira de muitas repúblicas de estudantes que viria a encontrar pelo caminho e fica a saber que estas residências se localizavam tradicionalmente dentro da muralha da cidade. A tasca Pinto também é motivo de destaque, a propósito do espírito boémio associado aos estudantes. Referências à Igreja do Salvador e ao pequeno espaço que há muitos anos era ocupado pela pastelaria Império completam a passagem pelo largo.
A primeira intervenção da Casa da Esquina acontece de modo quase discreto e de tal maneira surreal, que alguns dos visitantes demoram algum tempo a processar que a música que ouvem no meio da rua não vem de nenhuma casa. Há também uma personagem que observa o grupo e guarda o momento para a posterioridade. Como se nada se passasse, Branca Gonçalves prossegue a visita e chama a atenção para aspectos mais tradicionais que a zona mais antiga de Coimbra ainda conserva. É o caso dos estendais improvisados na rua e dos pequenos jardins que se ocultam com muros ou gradeamentos no meio da Alta.
A casa onde viveu Adriano Correia de Oliveira, enquanto estudante da universidade, é ponto de paragem, com direito a referência a Maria Marrafa, a senhora que habitava a casa da frente e que distribuía as sebentas (antecedentes dos apontamentos) aos estudantes. A viagem prossegue pelo meio de ruas apertadas e, numa delas, os actores da Casa da Esquina apresentam um momento dedicado a Fernando Assis Pacheco, escritor nascido em Coimbra em 1937.
Com laivos de humor, três personagens tipicamente associados à cidade compõem um cenário que consegue, sem cair em lugares comuns, recriar o espírito de folia dos estudantes e os amores não correspondidos. Ao deixar o cenário improvisado para trás e a caminhar em direcção à casa de Eça de Queirós, os elementos do grupo de turistas comentaram com satisfação o que tinham acabado de ver.
O número 12 da Rua do Loureiro foi a residência de Queirós durante a passagem pela Universidade de Coimbra. Branca Gonçalves destaca, entre outras informações, o facto de os textos do escritor se continuarem a revestir de actualidade. Alguns passos à frente, o grupo foi apresentado à fachada em renovação da Casa da Escrita, que tem abertura prevista ainda em 2010. A casa acolheu muitos escritores que viveram em Coimbra, incluindo Fernando Namora.
Um salto para fora da muralha
A passagem pela Torre de Anto, onde residiu António Nobre, permitiu ver parte do que resta à superfície da muralha de Coimbra. Esta torre, assim como o Paço Sub-Ripas, faziam parte do sistema defensivo da cidade, acoplado à muralha.
Os visitantes seguem por baixo do passadiço em arco, que une os dois lados da rua, e param para conhecer melhor alguns elementos arquitectónicos que lhe estão associados. A entrada manuelina ao lado do arco é motivo de destaque, mas também são reveladas curiosidades, como por exemplo o envolvimento da autarquia na construção do arco e as exigências de altura que fizeram para a travessia dos cavaleiros com lanças.
O percurso levou, até agora, o grupo pelo interior da cidade muralhada e foi, inclusive, chamada a atenção para os pequenos mosaicos metálicos com o símbolo da muralha de Coimbra, que adornam o chão ao longo do caminho. No entanto, ao chegar à zona onde se encontra a entrada de uma escola primária é preciso adoptar uma rota alternativa, já que não é permitida a passagem por dentro do estabelecimento de ensino.
As pessoas vêem-se, assim, fora da muralha e em frente à casa de Aristides de Sousa Mendes, que durante a Segunda Guerra Mundial ajudou a evitar que muitos judeus fossem deportados para campos de concentração. O diplomata português foi um dos estudantes que passou por Coimbra e é recordado durante o percurso.
Antes de chegar à zona da Sé Velha, três "doutores" aparecem pelo caminho e, após muitas hesitações e cotoveladas, homenageiam Almada Negreiros.
Através da janela de Miguel Torga
A visita está quase no fim, mas antes ainda é feita uma passagem por várias repúblicas de estudantes e pela antiga glória de Coimbra, o Teatro Sousa Bastos. A violência da alcunha de Joaquim António de Aguiar, o "Mata-Frades", causa algum espanto na turista brasileira do grupo. A casa do responsável pela extinção das ordens religiosas portuguesas é também um dos pontos de relevo na visita.
Ao chegar ao Governo Civil, um estendal improvisado num gradeamento, faz recordar o início do percurso. Branca Gonçalves recorda as construções das couraças de Lisboa e da Estrela, para facilitar a comunicação entre a parte baixa e a parte alta da cidade e, ao prosseguir em direcção à portagem, abre-se uma janela ao som das palavras do "Diário II" de Miguel Torga. A homenagem a Coimbra e ao Mondego, feita através do olhar de Torga é interpretada de maneira graciosa pelos actores da Casa da Esquina. O consultório do alter-ego do escritor, o médico Adolfo Rocha, é a última paragem na visita de duas horas.
Após o percurso, Nuno Almeida, um dos turistas recomenda a visita e, garante que, apesar de ser de Coimbra, enriqueceu o conhecimento que tinha da cidade. Destaca no percurso a "zona de Sub-Ripas e da Torre de Anto, onde se vê um bocadinho da muralha da cidade, porque é algo de emblemático que remonta à história de quando a cidade ainda tinha em volta uma muralha" e realça ainda o trabalho dos actores na construção das deixas a partir de diversos trabalhos dos três escritores.
"Coimbra, um outro olhar" vai-se realizar mais uma vez no sábado, 24 de Julho. As inscrições podem ser feitas através do número 239 702 630 e a lotação é limitada a 35 pessoas. Vai ser a última oportunidade para percorrer a Alta com a participação da Casa da Esquina. No entanto, o mesmo percurso, com visita guiada, é realizado uma vez por mês numa quarta-feira e as reservas podem ser feitas para o número de telefone acima referido.






