Convulsões sociais

2011: Protestos, Revoluções e Mudanças

Terça, 19 de Julho de 2011

por Acabra .Net

Durante o presente ano, diversos protestos e revoluções surgiram um pouco pelo globo a uma escala inédita. Durante meses, pessoas vieram para a rua para lutar pelos seus direitos, enchendo praças, erguendo acampamentos e derrubando governos. Por Maria Garrido e Bruno Monterroso

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Durante 6 meses parte da luta fez-se na rua por populares indignados Foto por D.R.


“A mudança é a grande constante deste tempo e é uma mudança muito acelerada”, afirma o comentador político Marcelo Rebelo de Sousa. Essa é, na opinião do também professor de Direito Constitucional, uma das principais características do ambiente que se vive um pouco por todo o globo neste atípico ano de 2011, até agora marcado por revoluções, protestos, manifestações ou acampadas, que atingiram proporções e moldes até hoje pouco comuns. Na opinião do docente, estes protestos devem ser separados entre “fenómenos num mundo não democrático visando aparentemente a democracia [revoluções árabes] e fenómenos num mundo democrático descontente com a crise económica, social e cultural, e com algumas insuficiências mais ou menos graves do funcionamento do sistema democrático representativo [protestos ocidentais]”, explica.    

O especialista em política internacional, José Goulão, considera que “quem de facto sofre esta agressão social imensa que existe em todo o Mundo não pode preocupar-se com divisões pequeninas entre si”. Assim, segundo o comentador político, as populações devem “unir-se, pôr de parte diferenças que são de facto mínimas”, de modo a combater “o monstro da dívida, de quem a cria e do sistema que a alimenta”, considerando ser este “o grande problema e a génese” de todas estas revoluções e protestos. Na opinião do também jornalista, “as pessoas têm razão e podem e devem continuar a manifestar-se”, acrescentando, ainda, que as manifestações, “onde quer que existam, têm sido pacíficas”, criticando, sim, a ”violência” por vezes utilizada pelas autoridades como forma de repressão.


Já Garcia Leandro, antigo diretor do Instituto da Defesa Nacional, considera que “a crise do sistema bancário e das seguradoras norte-americanas de 2008” foi o rastilho que desencadeou vários destes acontecimentos, acreditando ainda que o maior problema de todos seria se os Estados Unidos da América entrassem “numa crise financeira grande”, considerando que esse facto seria “um terramoto”, uma vez que é a maior potência económica mundial. O também general considera ainda que as recentes transformações, como a “ revolução da internet” e as redes sociais, são “uma coisa importante e espantosa” que, no caso dos regimes autoritários, “dispensa os meios de comunicação social para reagir contra os mesmos”. 


“Manifestações muito maiores do que alguma vez houve”  

Pedro Varela, estudante que participou nas acampadas em Portugal e em Espanha, acredita que estas, a par das revoluções e protestos no Médio Oriente e no Norte de África, “serviram como um primeiro passo para as pessoas se começarem a organizar, a juntar e a terem noção que é possível mudar, mas tem que se lutar”. O estudante lembra que “houve manifestações muito maiores do que alguma vez houve – tanto as revoluções no norte de África, como o fenómeno que começou em Madrid e que se espalhou à Europa toda”. “Das melhores coisas que já houve nos últimos dez anos”, comenta Pedro Varela.    

António Rolo, estudante de Direito na Universidade Clássica de Lisboa, saúda os acontecimentos nos Países Árabes que se “manifestaram por uma coisa que nós já nos habituámos a ter e que não valorizamos - a democracia”. Nesse sentido, o estudante considera que “a democracia não passa só pelo poder popular, englobando também uma combinação de proteção do indivíduo e das minorias”, deixando ainda uma questão: “numa situação hipotética de absoluto poder popular qual seria a diferença entre a democracia e a ditadura?”.


“Pessoas sem condições para sobreviverem por si próprias” 
 
Apesar de preferir que “a luta se faça em quadros institucionais mais estáveis”, Marcelo Rebelo de Sousa admite que “quando isso não acontece, a manifestação de rua também cabe na democracia, desde que pacífica e respeitadora”. O comentador considera ainda que estes movimentos ganharão expressão consoante o agravar da crise económica e social, e no caso de “não haver capacidade de resposta das forças e estruturas existentes”. O professor da Universidade de Lisboa defende ainda que “não há fins da história, nem de fim mrxista nem de fim liberal, sendo esta feita de avanços e recuos”.  

Garcia Leandro, lembra que “era teoria destes especialistas de finanças que os países deviam investir nas suas atividades à custa do endividamento, com dinheiro que era barato”. O mesmo lamenta ainda as “terríveis crises da dívida, que já não são só em Portugal, Espanha ou na Grécia, já apanham Itália, França ou os Estados Unidos”, criticando ainda as medidas de austeridade a elas associadas que resultam em “perda de estatuto, emprego, nível de vida”, e as quais, acrescenta, “não vão resolver nada, só vão agravar”.  

Finalmente, José Goulão critica este “pensamento único, de que as ideologias acabaram, que não se pode pôr em causa o poder e a liberdade dos mercados, a liberdade do domínio do privado sobre o público”. O comentador político considera tudo isto como “a nova ideologia, a única ideologia, e a que nos levou a esta situação em que as pessoas começam a não ter condições para sobreviver por si próprias”. “Neste momento, como as coisas estão, o cidadão, através do voto, não interfere no seu futuro”, conclui.